Pacote federal de R$ 11 bilhões contra facções coloca mercado imobiliário, turismo e lavagem de dinheiro no centro do debate na Paraíba

Diretor da Senappen afirma que avanço do crime organizado vai além do tráfico e alerta para exploração econômica, uso de rotas estratégicas e necessidade de maior integração entre Estado e iniciativa privada

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Foto: Reprodução
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O pacote federal de R$ 11 bilhões lançado pelo governo federal para enfrentamento ao crime organizado colocou no centro da estratégia nacional um ponto considerado crucial pelas forças de segurança: o combate financeiro às facções criminosas.

A medida prevê reforço em inteligência, rastreamento patrimonial e combate à lavagem de dinheiro, atingindo diretamente a estrutura econômica das organizações criminosas.

O debate ganhou ainda mais repercussão na Paraíba após a reportagem exibida pelo Fantástico sobre o avanço do crime organizado em Cabedelo. A investigação revelou monitoramento clandestino de ruas, suspeitas de infiltração em estruturas públicas e atuação de facções em uma das regiões que mais cresceram economicamente no estado nos últimos anos.

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Com população estimada em mais de 70 mil habitantes e um dos maiores PIBs per capita da Paraíba, superior a R$ 61 mil, Cabedelo se consolidou como uma das áreas mais estratégicas economicamente do estado, impulsionada principalmente pelo porto, turismo, mercado imobiliário e expansão logística.

O Porto de Cabedelo, considerado peça-chave da economia paraibana, movimentou cerca de 1,5 milhão de toneladas em 2024, registrando recorde histórico nas operações de combustíveis, coque de petróleo, trigo, malte e açúcar. O terminal vem recebendo sucessivos investimentos em modernização, incluindo um pacote superior a R$ 300 milhões anunciado pelo governo federal neste ano.

Porto de Cabedelo (Foto: Divulgação)

Em entrevista exclusiva ao Paraíba Business, o diretor de Inteligência Penal da Secretaria Nacional de Políticas Penais, Antônio Glautter de Azevedo Morais, afirmou que as facções deixaram de atuar apenas no tráfico de drogas e passaram a buscar novas formas de arrecadação e influência territorial.

“O domínio territorial, no início, era estratégico para a questão do tráfico local. Hoje, a gente percebe claramente um avanço na exploração de serviços, que para eles é uma forma de monetizar, mas também de controlar pontos estratégicos para rotas de tráfico interestadual e internacional.”

Segundo ele, grupos criminosos passaram a atuar em atividades clandestinas e serviços paralelos dentro das comunidades.

“Hoje o que se percebe, muito mais do que o tráfico local, é a exploração de outros serviços, como mototáxi, internet, transporte por vans e serviços ilegais, muitas vezes com intimidação a empresários e comerciantes locais.”

O diretor da Senappen também afirmou que o controle territorial passou a gerar reflexos em outras áreas, inclusive políticas e eleitorais.

“Essas organizações se aproveitam do domínio do território e do medo imposto à população como ferramenta de controle sobre as comunidades.”

Diretor de Inteligência Penitenciária da SENAPPEN, Antônio Glautter (Foto: SENAPPEN/ Divulgação)

Combate financeiro busca enfraquecer estrutura das facções

Antônio Glautter afirmou que a descapitalização das organizações criminosas é considerada uma das principais estratégias de enfrentamento adotadas atualmente pelo governo federal.

“Todo esse conjunto de crimes praticados por essas facções, seja tráfico local, interestadual, internacional, tráfico de armas, contrabando ou exploração de serviços, tem como finalidade a obtenção de vantagem financeira.”

Segundo ele, retirar recursos das organizações criminosas reduz capacidade operacional, expansão e poder de influência.

“Quando você descapitaliza essas organizações, você enfraquece a atuação delas, dificulta novos crimes e ajuda na desarticulação dessas facções.”

Crescimento econômico e expansão urbana entram no radar

O diretor da Senappen afirmou que cidades portuárias, turísticas e com forte expansão imobiliária acabam atraindo o interesse do crime organizado tanto pela logística quanto pela possibilidade de lavagem de dinheiro.

“Uma cidade que possui porto acaba se tornando estratégica para tráfico de armas e drogas. Isso naturalmente desperta o interesse dessas organizações criminosas.”

Além da posição geográfica estratégica — na principal ligação marítima da Paraíba com mercados internacionais — Cabedelo também vive um ciclo de valorização imobiliária impulsionado pelo turismo e pela expansão urbana da Grande João Pessoa.

Nos últimos anos, o município passou a atrair novos empreendimentos residenciais, condomínios de alto padrão e investimentos ligados ao setor turístico, especialmente nas regiões de Intermares, Ponta de Campina e Camboinha. O movimento acompanha o crescimento acelerado da faixa litorânea paraibana e o aumento da procura de investidores de outros estados.

Segundo Antônio Glautter, esse cenário econômico também exige maior atenção dos órgãos de controle.

“Essa expansão imobiliária e turística também pode ser utilizada para lavagem de dinheiro. Isso é algo que se percebe claramente em João Pessoa e em regiões que passaram a receber investimentos e pessoas de várias partes do Brasil.”

O diretor ressaltou que o crescimento da cidade atrai investidores e turistas, mas também pode despertar interesse de criminosos interessados em ocultar recursos ilícitos.

“O mercado imobiliário é uma frente historicamente utilizada para branquear capital e transformar recursos ilícitos em patrimônio legal.”

Governo cobra participação da iniciativa privada

Antônio Glautter afirmou que o Brasil possui órgãos estruturados para combater lavagem de dinheiro, como Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Polícia Federal e os setores de inteligência do sistema penitenciário.

Apesar disso, destacou que o enfrentamento ao crime organizado também depende da participação de setores econômicos.

“É importante que mercado imobiliário, construção civil, turismo e outros setores estejam atentos e façam as comunicações necessárias aos órgãos competentes.”

Segundo ele, a integração entre Estado e iniciativa privada é considerada essencial para identificar movimentações suspeitas e impedir infiltrações financeiras do crime organizado.

“O Estado está vigilante, mas é importante que toda a sociedade também esteja atenta a essas ações praticadas por organizações criminosas com elevado poder financeiro.”

A preocupação cresce justamente em um momento em que Cabedelo amplia sua importância econômica no Nordeste. Com porto em expansão, turismo fortalecido e crescimento imobiliário acelerado, especialistas avaliam que proteger a economia formal passou a ser também uma questão estratégica de segurança pública.

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Rivânia Queiroz
Jornalista com mais de duas décadas de experiência, construiu sua trajetória entre redação, estratégia e posicionamento de marcas. À frente do Paraíba Business, como editora-chefe, conduz a linha editorial com olhar analítico e foco no que movimenta a economia e os negócios. Também assina coluna sobre gastronomia, conectando mercado, cultura e experiência.