Haddad diz que é preciso acertar comunicação sobre autonomia do BC e arcabouço fiscal para conter alta do dólar

Ministro se reuniu, nesta manhã, com parlamentares

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Ministro da Fazenda, Fernando Haddad. — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

O ministro da Fazenda Fernando Haddad afirmou nesta terça-feira que é preciso acertar a comunicação sobre a autonomia do Banco Central (BC) e rigidez do arcabouço fiscal para conter a alta do dólar em relação ao real.

— Eu acredito que o melhor a fazer é acertar a comunicação, tanto em relação a autonomia do Banco Central como o presidente fez hoje de manhã quanto em relação ao arcabouço fiscal. Não vejo nada fora disso, autonomia do Banco Central e rigidez do arcabouço fiscal, é isso que vai tranquilizar as pessoas — disse o ministro em coletiva a jornalistas no ministério da Fazenda.

O dólar voltou a operar em alta nesta terça chegando nos R$ 5,68, com investidores ainda repercutindo as críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Banco Central do Brasil (BC) e ao presidente da autoridade financeira, Roberto Campos Neto.

Em entrevista na manhã desta terça-feira, Lula foi questionado se o governo vai adotar alguma medida para conter a depreciação do real e afirmou que é necessário tomar alguma atitude, mas não revelou o que seria:

— Temos que fazer alguma coisa, mas não posso falar porque estaria alertando meus adversários.

A partir das declarações de Lula cresceram especulações de que o governo baixaria o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para conter a depreciação do real. Na coletiva desta manhã, no entanto, Haddad negou mudanças na cobrança do tributo.

— Não sei de onde saiu esse rumor — disse o ministro

Críticas ao BC

Nesta terça, Lula voltou a dizer que a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central tem “viés político”, mas recuou em relação a autonomia da autoridade monetária, um ponto que vinha sendo criticado por Lula nas últimas semanas.

— Mas eu acho que a gente precisa manter o Banco Central funcionando de forma correta, com autonomia, para que o presidente do BC não fique vulnerável às pessoas políticas. No entanto, se você é um presidente democrata, permite que isso aconteça sem nenhum problema. Mas Banco Central não pode estar a serviço do sistema financeiro, é um banco do Estado — disse o presidente.

Também nesta terça-feira, Campos Neto disse que a interrupção do ciclo de quedas nos juros, decidido na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), teve como uma das motivações “ruídos” em relação a expectativas sobre a trajetória fiscal e política monetária do país.

— Isso (queda de juros) teve muito mais a ver com muitos ruídos que criamos do que com os fundamentos. E os ruídos estão relacionados a duas coisas, uma é a expectativa na trajetória da política fiscal e a outra é a expectativa sobre futuro da política monetária — afirmou Campos Neto durante palestra no Forum on Central Banking, promovido pelo Banco Central Europeu (ECB), em Portugal.

O presidente do Banco Central completou:

— Quando tivemos esses dois ao mesmo tempo, isso criou incerteza suficiente para nós. Precisávamos interromper e ver como podemos consertar as expectativas e nos comunicar melhor para que possamos eliminar esses ruídos, porque existe uma grande desconexão com os dados atuais, tanto os dados fiscais e de inflação quanto a expectativa. Então o que aconteceu no Brasil é que a expectativa começou a se ancorar, mesmo que os dados atuais estejam vindo conforme o esperado.

Na última reunião, em 19 de junho, o Copom decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 10,50% ao ano, após sete cortes consecutivos iniciados em agosto do ano passado, quando a taxa estava em 13,75%. A decisão interrompeu o ciclo de queda a contragosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem afirmado “não ver explicação” para manter a Selic nesse patamar.

A ata do encontro, publicada dois dias depois, indicou que a taxa básica de juros não deve cair tão cedo diante da deterioração do cenário observado pelo comitê para a inflação, como o cenário externo “adverso” e a atividade econômica mais forte. Além disso, reafirmou a necessidade de se manter uma “política fiscal crível”.

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