Entenda a crise que levou à troca no comando na Petrobras

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Pressão pelo cargo de Jean Pau Prates já se arrastava há meses, com divergências quanto ao pagamento de dividendos, política para o gás e investimento em energia renovável

Desde que o nome de Jean Paul Prates foi anunciado para comandar a Petrobras, no fim de 2022, seu cargo tornou-se alvo de cobiça e disputa dentro do governo. Nesta terça-feira (dia 14), ele foi demitido da presidência da estatal, cargo que será assumido por Magda Chambriard.

Durante o dia, o executivo não participou pela primeira vez da teleconferência de resultados da companhia, enviando apenas uma mensagem gravada. A empresa havia divulgado lucro 38% menor do que no primeiro trimestre do ano passado, com ganhos de R$ 23,7 bilhões.

Atritos públicos

Já nos primeiros meses de seu mandato começaram os atritos públicos com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. A crise mais grave ocorreu em março deste ano com a decisão dos indicados por Silveira ao Conselho de Administração da estatal de não aprovarem a distribuição dos dividendos extraordinários de R$ 43,9 bilhões, em oposição ao defendido pela diretoria e pelos membros do colegiado indicado pelos acionistas minoritários.

Composição do conselho

A discussão pública entre Silveira e Prates enterrou de vez uma relação já conturbada, elevando o desgaste do presidente da Petrobras no governo. O primeiro sinal desse atrito começou em março de 2023, no início do mandato de Prates, durante a corrida para escolher os nomes do colegiado da estatal.

Silveira se queixou ao presidente Lula que não havia sido ouvido por Prates. A reclamação forçou a mudanças na lista, com a inclusão e a retirada de diversos nomes de forma a atender ao pleito de Silveira. Com força no Conselho, o ministro passou a ter mais voz política nas discussões da companhia e em Brasília.

Investimento em gás

Meses depois, outro embate. Agora, o tema da briga foram os poucos investimentos da estatal na área de gás. Silveira chegou a afirmar que o comando da Petrobras tratava a política para o gás com “negligência”. Prates não gostou e partiu para uma nova fase da disputa pessoal, explicando em eventos os investimentos no segmento que estavam sendo feitos.

Houve ainda algumas discussões em torno dos preços dos combustíveis, com “puxões de orelha” a Prates. O presidente da estatal subiu o tom e disse em uma das ocasiões que, se o MME quisesse “orientar a Petrobras a baixar os preços de combustíveis diretamente” , seria necessário seguir a Lei das Estatais ou alterar as regras do Estatuto Social da companhia.

Plano de negócios

No fim de 2023, outro ponto de discórdia ocorreu em meio aos preparativos do plano de negócios da estatal para os anos de 2024 a 2028, de US$ 102 bilhões (cerca de R$ 500 bilhões). Em uma das reuniões do Conselho, os representantes indicados pelo próprio governo chegaram a questionar as apostas da atual direção executiva da empresa em aportar recursos nas fontes de energia renováveis.

Nesse meio tempo, Silveira emplacou diversas indicações nos Comitês de Assessoramento, ganhando mais peso dentro da companhia. Entre os conselheiros minoritários, o clima sempre foi de estar no meio de uma guerra de poder pela cadeira mais cobiçada do Brasil. “Todos querem esse posto”, afirmaram por inúmeras vezes os representantes do mercado.

Um deles chegou a mostrar preocupação com a estatal até o fim do governo Lula. “Querem abrir as portas para tudo novamente”. Até uma aproximação do Brasil na Opep, que reúne o cartel das petroleiras, virou tema de discussão.

Crise dos dividendos

Mas a crise maior ainda estava por vir. Em março, após a publicação dos resultados financeiros de 2023, os membros do Conselho indicados pela União não aprovaram a distribuição de dividendos. A rixa tornou insustentável a relação entre os dois, a ponto de Lula ser chamado para arbitrar o caso.

Com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como aliado, Prates ganhou tempo na empresa. Em uma reunião em Brasília, decidiu-se que um integrante da equipe de Haddad teria um posto no Conselho, desagradando Silveira.

‘Fritura’

A “fritura” de Prates, observaram diversas fontes, não tem a ver com seu perfil técnico. Ex-funcionário da estatal, ele é advogado formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestre em economia e gestão de petróleo pelo Instituto Francês do Petróleo e mestre em política energética e gestão ambiental pela Universidade da Pensilvânia.

Foi ainda diretor executivo da Expetro Consultoria, com atuação nos anos 1990 e 2000. Depois, rumou para a política, onde se aproximou do PT. Foi secretário de Energia do Rio Grande do Norte e senador do PT pelo estado de 2019 até renunciar para assumir o comando da estatal.

Foi no Congresso que Prates ganhou a confiança de Lula ao criticar fortemente a gestão de Jair Bolsonaro na área energética.

Antes mesmo de assumir o comando, parte dos aliados de Lula tentou rifar o nome de Prates, alegando conflito em assumir a companhia por ter participado da corrida eleitoral no Rio Grande do Norte. Mas, apesar da desconfiança, passou nas regras de governança da estatal e assumiu a companha.

Cobrança por grandes obras

Durante sua gestão, Prates seguiu a cartilha defendida por Lula na campanha eleitoral: retomou o projeto de ampliação das refinarias, colocou a energia renovável no portfólio da estatal e criou uma nova política de preços dos combustíveis, com o fim da PPI, e paridade internacional de preços.

Mas Lula queria mais. Em diversas reuniões, questionava a demora em acelerar o início de diversas “grandes obras” como em unidades de fertilizantes, a construção de navios e até a volta de um projeto de novas refinarias. De olho nas eleições, Lula queria voltar a geração emprego a pleno vapor o quanto antes.

Do outro lado, Prates seguia os ritos de governança da empresa, reforçados após os casos de corrupção revelados pela Operação Lava-Jato durantes as gestões anteriores do PT. Com isso, muitos dos projetos idealizados por Lula acabaram levando mais tempo para sair do papel. Lula entendia a situação, mas cobrava mais celeridade mesmo assim, destacou uma das fontes.

Em conversas reservadas, por diversas vezes, Prates chegou a dizer que “se fosse tirado do cargo não seria pelo trabalho”.

Outras trocas

Não é a primeira vez que um presidente da Petrobras, sob pressão, deixa o cargo. No governo Dilma, Graça Foster caiu após pressão política envolvendo a queda nos preços dos combustíveis.

Na gestão de Michel Temer, Pedro Parente deixou o cargo após greve dos caminhoneiros. No governo de Jair Bolsonaro, os preços voltaram à pauta com o aumento do petróleo na esteira da retomada da economia após o ponto mais crítico da pandemia.

Em dois anos, uma sucessão de mudanças envolvendo Roberto Castello Branco, Joaquim Silva e Luna, além de José Mauro Ferreira Coelho.

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