A pequena ética dos 85%

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Uma manchete se repetiu no último maio em veículos de negócios. Ela nos alertou de que a geração “Z” tem perdido espaço no mercado de trabalho por falta de etiqueta.

Há décadas, já bradava Peter Drucker, tido, então e até hoje, como pai da administração moderna, que “as pessoas são contratadas por suas habilidades técnicas, mas demitidas por seus comportamentos”. Confirmando Drucker, estudo conjunto e mais recente das Universidades de Harvard, Stanford e Carnegie contabiliza  que, no nosso caminho rumo ao sucesso profissional, dependeremos 85% das nossas habilidades sociais, e apenas 15% das nossas habilidades técnicas. E aí eu inverto seu raciocínio e lhe pergunto: quanto tempo e dinheiro você investe em suas habilidades sociais em comparação às suas habilidades técnicas?

O currículo, a pós graduação, as constantes reciclagens nas mais renomadas instituições e, até mesmo, estar familiarizado e colaborativo com a tal inteligência artificial. Isso tudo somado, e estando em potencial máximo, não contabilizará mais que 15% no seu caminho rumo ao sucesso profissional. O segredo para os 85% restantes está em COMO VOCÊ ESTÁ INTERAGINDO.

Somos naturalmente inclinados a acreditar que habilidades sociais não precisam ser treinadas, que etiqueta é algo de antigamente, e que a técnica por si se basta. Somos naturalmente inclinados a acreditar que habilidade social consiste em ser minimamente tolerável, gentil quando possível e ter auto controle sobre as emoções. 

Nas palavras do professor de filosofia Clóvis de Barros Filho “a ética é uma iniciativa coletiva para harmonização das relações”. E a etiqueta? Etiqueta nada mais é que a PEQUENA ÉTICA. 

Quando observamos que falta etiqueta à geração “Z”, e ouso pensar que não seja essa a única geração vítima dessa carência, observamos que falta simplesmente a iniciativa de preocupar-se com as relações. Ocupar-se, preocupar-se, ou, no fundo, simplesmente, importar-se! Importar-se com o bem estar do outro, importar-se com o espaço do outro, importar-se com a necessidade do outro. Ter senso de coletividade. E atenção, o importar-se, de alma e coração, com o coletivo, será cada vez mais valioso em um mundo onde competimos com máquinas. Num mercado cada vez mais virtualizado, o quão humanos somos nos diferenciará.

Etiqueta corporativa como pequena ética corporativa não trará firulas desnecessárias ao comportamento de indivíduos. Do contrário, ela dará nortes muito práticos, fundados em orientações éticas, para harmonizar relações. Desde a educação básica de se cumprimentar a todos olhando nos olhos, por ser generoso olhar nos olhos, passando pelo protocolo de como se montar apropriadamente a disposição de pessoas numa mesa de reunião, até a etiqueta da demissão profissional e humanamente bem feita, etiqueta corporativa é norte.

Uma empresa é um motor repleto de engrenagens humanas que devem funcionar em perfeita harmonia para que não haja pane. A forma como cada peça desse motor interage uma com a outra deve ser besuntada pelo óleo sagrado do importar-se. Importar-se com o coletivo. Sobrepor o coletivo ao individual. Interagir com excelência, como costumo dizer. Na pequena ética do interagir com excelência residirá 85% de suas chances de sucesso profissional. Na pequena ética do interagir com excelência residirá o seu acerto ou erro na hora de escolher quem contratar entre candidatos com currículos tecnicamente idênticos. Será que esta ética é tão pequena assim?

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Milena Neves
Advogada, palestrante e criadora de conteúdo. Pós-graduada em Neurociências, especialista em Etiqueta Social e Corporativa, pesquisadora da gentileza como geradora de resultados.