A Gentrificação do mercado imobiliário

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Exemplo de gentrificação no bairro de Tribeca, em Nova Iorque

O mercado imobiliário é extremamente plural e dele decorrem vários fenômenos capazes de impactar positiva ou negativamente a vida dos residentes de um bairro ou região da cidade. O mesmo acontece com a atividade turística nos períodos de alta estação, quando boa parte dos moradores preferem recolher-se socialmente em eventos mais caseiros, tamanha a ocupação dos espaços públicos, shoppings, bares e restaurantes pelos visitantes que desfrutam a cada dia os atrativos de lazer do destino.

 Neste espaço trataremos do processo de gentrificação do mercado imobiliário. Gentry, uma expressão inglesa, na sua literalidade, indica pessoas ricas ligadas ao que é mais nobre. O termo originou-se na década de 1960 na Inglaterra, quando vários gentriers se mudaram para um bairro mais popular. Naturalmente, este fato impactou e gerou uma supervalorização de preços naquela localidade específica, promovendo a expulsão dos antigos moradores e a consequente acomodação dos novos. Tratado como gentrification, o fenômeno passou a ser compreendido como a elitização de um setor específico da cidade.

Trazendo tal fenômeno para a nossa capital paraibana, é fato que algumas incorporadoras detêm poder para desbravar áreas até então não observadas pelas concorrentes de menor porte, gerando com esse “desbravamento” condições imperdíveis para aquisição imobiliária aos adeptos dos investimentos “na planta”. Em concreto, é possível citar as praias do Seixas em João Pessoa, assim como Formosa em Cabedelo, como cases incontestáveis. Acontece que após o desbravamento, momento em que os investidores locais se beneficiam da oportunidade, vem a supervalorização já retratada e o afastamento natural deste extrato de clientes. A régua aumenta e passa a exigir mais poderio econômico. 

O que dizermos então da realidade vivida em bairros como Cabo Branco e Tambaú, em João Pessoa, bem como Ponta de Campina, em Cabedelo? Aí reside o verdadeiro fenômeno da gentrificação local, haja vista a diminuição do poder de compra, por parte de moradores locais, de empreendimentos situados à beira mar das citadas praias. Tal fenômeno se confirma pelo elevado número de imóveis lançados e negociados com clientes de outros Estados da Federação, onde os preços do metro quadrado estão ainda bem acima dos praticados aqui. Famílias inteiras buscam João Pessoa como destino residencial ou de férias para o futuro, considerando a tranquilidade, belezas naturais, diferenciais urbanísticos e arquitetônicos, rica gastronomia, segurança, entre outros pontos considerados fundamentais para a qualidade de vida.    

Daí o porquê de clientes de São Paulo, Brasília, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, dos Estados do Norte, além de outras nações, considerarem hoje João Pessoa a “queridinha do Brasil” e passarem a ser os principais clientes de imóveis situados à beira mar. Toda essa realidade foi confirmada com o significativo aumento da população em mais de 15% em 12 anos de acordo com o último censo do IBGE. Pois bem, em razão da gentrificação verificada, a elevação do valor do metro quadrado dos produtos à beira mar gerou uma retração nos negócios realizados com clientes locais que se viram sem o poder de compra de um passado recente. A fatia mais valorizada da orla passou a ser pensada em razão de novas perspectivas de consumo, admitindo uma migração natural para bairros como Jardim Oceania, Aeroclube, Bessa, Manaíra, em João Pessoa, assim como Intermares em Cabedelo. 

Nessa mesma linha de raciocínio, observadas as valorizações do mercado de uma forma geral, inclusive nos bairros para quais boa parte dos pessoenses migraram, é possível entender que a parte alta de João Pessoa, precisamente Tambauzinho, Brisamar e Bairro dos Estados, já volta a ser objeto de estudos e pesquisas pelas incorporadoras para lançamentos futuros com o fito de atender uma demanda afastada dos preços praticados na orla. O mesmo se verifica em Cabedelo nos bairros Bela Vista e Poço. O processo da gentrificação precisa ser acompanhado pela gestão pública, entidades e ativistas do mercado, de modo que o bairro gentrificado mantenha o seu natural glamour para os novos moradores, mas que os novos destinos dos moradores da cidade tenham consequências saudáveis, façam parte de um contexto de inclusão social, proporcionando uma vida abundante, tranquila, pujante e feliz. Não há como abrir mão dos novos investimentos, uma mola que impulsiona a economia local, entretanto com o olhar num equilíbrio que sempre deverá ser perseguido.   

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